Aceita que dói menos

A conversa agora é sobre aceitação! E pode ficar tranquilo(a) que não quero convencer ninguém de que é bom sofrer, que é bom ser a “vítima”, que é bom ser o “coitadinho” da história.

O conceito de aceitação aqui é contextualizado em uma dimensão muito diferente do que se fala por aí. Essa aceitação não se refere a passividade, acomodação, indiferença, frente a própria condição.

Há pouco tempo atrás li uma frase (não sei quem é o autor), que dizia o seguinte: fazer o simples nem sempre é o mais fácil! Se é que podemos dizer que esse processo de aceitação seja uma coisa simples de ser feita.

Normalmente quando falamos em aceitação, entendemos ou fazemos referência a submissão, seja à algo, à alguém ou a uma situação específica e, não é por aí que quero caminhar com meu texto, pois para a grande maioria, a questão da submissão já trás a mente algo desagradável, de menosprezo, de rebaixamento, de inferioridade. Não é este o pensamento aqui.

Pois bem, vamos a alguns fatos reais e concretos que acontecem com as pessoas que sofrem com transtornos psíquicos de ansiedade generalizada e principal transtorno de pânico, quadros psíquicos que possuem certa comorbidade (independente dos motivos que levaram a pessoa a essa condição).

É comum que pessoas com estes quadros tendem a se esquivar e fugir de situações tidas como “potenciais” para a manifestação dos dolorosos e angustiantes sintomas da TAG e do pânico (falta de ar, vertigem, tontura, nauseas, dores, sensação de desmaio, de loucura, de perda de controle, etc) justamente devido a situação de exposição e provável constrangimento, o que realmente é muito ruim, e eu sei muito bem, por experiência própria, o que é isso. Muitas vezes, devido a esses fatores, essas pessoas tendem a se isolar e evitar possibilidades em que tenham que se relacionar com outras pessoas, sejam pessoas conhecidas ou desconhecidas (trabalho, escola, igreja, shopping, mercado, etc).

Aqui compartilho situações que vivi em momentos de trabalho, compromissos profissionais, encontros com amigos, reuniões familiares e até momentos de descontração em passeios e viagens em companhia da minha esposa, em que fui acometido por esses terríveis sintomas. Momentos angustiantes e aflitivos que só quem viveu saberia descrever (aliás, é bem difícil descrever). Nesses momentos, para alguns que presenciaram a cena não passava de um simples estado de stress, para outros, frescura, para outros, carência. Fazer o quê, né?

Mas vamos lá, onde quero chegar, com isso?

O fato é que em praticamente, senão todas essas situações, o que mais agravou o meu quadro no momento (e acredito que aconteça com todos), um quadro passageiro que tende a durar de 5 a 20 minutos, mas que para quem está passando, parece durar uma eternidade, foi a questão de tentar “lutar” ou “resistir” ao que estava acontecendo (como se isso fosse possível), e aqui poderíamos entrar na dimensão biológica e fisiológica explicando o funcionamento do sistema nervoso central, periférico e simpático, mas isso vai ficar para uma próxima postagem.

Ou seja, resistir e tentar lutar nessas horas é algo totalmente inútil e pode piorar a situação, pois tende a aumentar a intensidade negativa psicológica e física dos sintomas e prolongar o tempo e a duração do eventual transtorno.

O outro fato que tende a agravar a situação e aqui quero voltar ao tema constrangimento, é tentar esconder a situação, tentar evitá-la, NÃO ACEITAR, não “deixar rolar”. Eu sei, não é fácil, é muito ruim, é horrível! Sim, eu sei. Mas cientificamente está comprovado que isso só tende a reforçar o quadro e, por experiência própria tenho entendido isso.

É muito ruim ter que depender dos outros, se mostrar fraco e de certa forma “doente” frente as pessoas, de parecer estar ficando “louco”, de ouvir determinados comentários ou olhares estranhos. Mas e aí? Será mesmo que todos estão realmente bem? Será mesmo que você e eu somos o “patinho feio” da história? Será que não faz parte da condição humana passar por momentos desconcertantes, inesperados e até mesmo aflitivos? Antes de mais nada, somos humanos e precisamos aceitar e entender isso. Na nossa condição humana existe um “pacote de coisas” que iremos descobrir ao longo de nossas vidas! Não somos melhores que os outros e muito menos inferiores. É óbvio que existam diferenças entre as pessoas, qualidades, dons, personalidade, temperamento, possibilidades, diferenças na condição de saúde, financeira, social, etc. Isso é óbvio! Mas é isso o importante da vida?

Caso a resposta seja sim, inevitavelmente vamos viver num contínuo e angustiante estado de comparação e aí, as coisa ficarão muito ruins, pode ter certeza! Mas se entendermos a nossa condição humana e nossa condição de dependência uns dos outros para o que quer que seja (ou ajudando ou pedindo ajuda), pode ter certeza que a vida se tornará no mínimo mais tranquila e saudável.

Daí a dimensão da aceitação. Aceitar a própria condição, seja a momentânea, a passageira, ou até mesmo a longa e duradoura, sem sentimentos negativos sobre si mesmo, sem culpa, sem constrangimento, sem negação da própria condição e desprezo pelo que se está passando, mas de forma consciente aceitar e resignificar o que se está sentindo, o que se está vivendo, o que está se passando com você. Como disse, estou aprendendo esse processo e já percebi que vale muito mais a pena dizer a quem está próximo a você em um momento difícil: “Só um minuto, por favor, pois não estou me sentindo muito bem, poderia permanecer comigo alguns minutos até que eu me recupere?”, do que tentar se esconder, sofrer sozinho e reforçar ainda mais o quadro de sofrimento solitário dos transtornos psíquicos.

Não é fácil, eu sei, mas é uma possibilidade de melhora, pode ter certeza! Vale a pena tentar!

E quanto ao que os outros vão pensar… dane-se! Diga bem alto: Dane-se!

Você vale mais do que o pensamento de qualquer pessoa sobre você!

Pois bem, não podemos parar aí. Buscar ajuda profissional de um médico psiquiatra e de um psicólogo são fundamentais para pessoas que sofrem com esses quadros, em especial quando percebem que são repetitivos e persistentes já a algum tempo! Sempre busque ajuda!

Nunca imaginei que este “aceita que dói menod” fosse verdade, mas parece que sim!

Geralmente ouvia isso de um amigo quando meu time do coração perdia um jogo ou um campeonato! (risos)

Estamos junto! É possível…

2 comentários em “Aceita que dói menos

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