Minha ansiedade é normal?

Como já dito em uma postagem anterior, a ansiedade é uma condição extremamente normal e compreensível da natureza humana, assim como diversos outros sentimentos e emoções que vivemos, como medo, alegria, tristeza, felicidade, irritação, esperança, raiva, etc. Na verdade a ansiedade pode ser entendida como uma preocupação, ou seja, estamos nos ocupando previamente com sentimentos e emoções em relação à algo, alguém ou uma situação específica.

Esta preocupação ou ansiedade ainda que normal pode ser positiva ou negativa. Positiva quando gera sentimentos de realização ou recompensa, por exemplo quando pensamos: Estou ansioso pela chegada de fulano (a) à festa que irei realizar! Ou então, estou ansioso para saber a nota da prova, pois sei que fui muito bem! Ou então, estou ansioso pela entrevista de emprego, pois tenho grandes chances de ser aprovado!

Já na condição negativa, a ansiedade tende a nos gerar pensamentos e outros sentimentos não tão bons que muito provavelmente nos levarão a evitação (fuga) da situação ou do contato com o outro. Por exemplo quando pensamos: Estou ansioso pela chegada de fulano (a) à festa que irei realizar, mas será que ele (a) vai gostar ou será que virá mesmo? Acho melhor nem esperar por ele (a). Ou então, estou tão ansioso que nem quero saber a nota da prova, pois sei que fui muito mal. Ou então, estou tão ansioso pela entrevista de emprego que estou me sentindo mal, acho que vai ser horrível. Talvez eu nem vá!

Pois bem, ainda desta forma, na condição positiva ou negativa, as condições de ansiedade apresentadas acima, ainda se mostram absolutamente normais e é o que todos vivemos em nosso dia a dia, experiências ansiosas, ora positivas, ora negativas e, “toca o barco”!

O fato interessante e importante de ser analisado é quando o quesito ansiedade passa a incomodar e, de certa forma, até mesmo controlar negativamente a sua e a minha vida, ditando o que devemos e podemos fazer ou não, gerando muito desconforto, constante comportamento de evitação e fuga e, exagerado foco nos sintomas físicos que ocorrem no momento que a tal ansiedade “desperta” em nós!

Uma condição de ansiedade constante, diante das mais diversas e comuns atividades do dia a dia, que ocasiona grande desconforto e principalmente medo com grande atenção aos sintomas físicos, tende a se transformar em transtornos psíquicos de quadro mentais como TAG (transtorno de ansiedade generalizada), TOC (transtorno obsessivo-compulsivo, fobias específicas, agorafobia (medo do medo) e/ou transtorno de pânico. Lembrando que esses transtornos de certa forma possuem uma comorbidade (ligação) entre eles, de modo que, podemos dizer de forma bem generalista, “um puxa o outro”.

Então como identificar se minha ansiedade é normal ou já se encontra com características de ansiedade patológica, como nos casos de transtornos citados acima?

Antes de mais nada, quero dizer que a única pessoa capacitada e autorizada a diagnosticar qualquer quadro de transtorno mental, seja afetivo ou emocional, é o médico psiquiatra, portanto, meu objetivo aqui não é sair distribuindo diagnóstico nem causar pânico aos leitores, se por algum motivo estes acreditarem estar sofrendo de algum transtorno citado anteriormente. Minha recomendação sempre será a busca por auxilio médico e terapêutico adequado e profissional quando acreditar ser necessário. O objetivo aqui é apenas de esclarecer algumas dúvidas em caráter informativo, a partir de experiências próprias, muito estudo e conversas com médicos e psicoterapeutas.

OK… Então para responder à pergunta acima, sobre ansiedade normal ou patológica (transtorno), quero utilizar como referencia e fonte um trecho do livro “Terapia Cognitiva para os Transtornos de Ansiedade” de Aaron Beck e David Clark da editora Artmed (2012).

Abaixo vou descrever de forma objetiva e pontuais as principais características, tanto da ansiedade normal quanto da ansiedade anormal, de acordo com a tabela 2.5 do livro citado, página 62.

Ansiedade normal

  • Sensibilidade mais equilibrada à detecção de estímulos positivos e negativos;
  • Avaliação da ameaça mais adequada baseada na realidade;
  • Considera a excitação um estado desconfortável, mas não ameaçador;
  • Atenção não tão estreitamente focalizada na ameaça, com menos erros cognitivos (formação dos pensamentos e reflexões);
  • Pensamentos e imagens ansiosos em menor quantidade e menos evidentes;
  • Considera o adiamento de comportamentos autoprotetores inibitórios tal como respostas de enfrentamento mais elaboradas;
  • Foco nos pontos fortes; autoeficácia alta e expectativa de resultados positiva;
  • Melhor processamento de sinais de segurança;
  • Capacidade de acessar e utilizar o modo de pensamento construtivo;
  • Preocupação orientada ao problema mais controlada e reflexiva;
  • A estimativa da ameaça é diminuída.

Ansiedade anormal

  • Sensibilidade aumentada a estímulos negativos;
  • Avaliação primária exagerada da ameaça;
  • Avaliação negativa de excitação autonômica;
  • Presença de tendências e erros de processamento relacionados à ameaça;
  • Pensamentos e imagens automáticos de ameaça frequentes e evidentes;
  • Iniciação de comportamentos autoprotetores inibitórios automáticos;
  • Foco nos pontos fracos, autoeficácia baixa e expectativa de resultados negativa;
  • Processamento pobre de sinais de segurança;
  • Inacessibilidade do modo de pensamento construtivo;
  • Preocupação orientada à ameaça, incontrolável;
  • A estimativa inicial da ameaça é exagerada.

Pois bem, estas são as principais características segundo Back e Clark, baseados no modelo cognitivo da ansiedade normal e do transtorno de ansiedade. Indico a leitura deste livro rico em informações sobre o tema.

Como disse anteriormente, a ideia aqui não é gerar pânico ou autodiagnóstico, apenas informar, pois acredito que a informação e a explicação destas condições, para quem está sofrendo as “perturbações” de uma vida ansiosa já é o primeiro passo para buscar a ajuda correta e a melhora na qualidade de vida. É o que eu sempre fiz e tenho feito constantemente. Conhecer aquilo que se vive e principalmente se conhecer são esforços que todos deveriam fazer e gastar o seu precioso tempo sem restrições ou imposição de condições. Esse é o caminho da cura. Se achar necessário busque orientação médica e profissional!

Espero estar ajudando. Forte abraço!

OBS: Este texto foi escrito tendo como referencia e fonte o livro “Terapia Cognitiva para os Transtornos de Ansiedade” de Aaron Beck e David Clark da editora Artmed (2012).

Deixe um comentário