Pois bem, durante todo o dia de hoje formulei ideias e pensamentos para escrever um texto com o intuito de orientar, informar e auxiliar os familiares, amigos, colegas de trabalho, entre outras pessoas que possuem entes queridos que padecem de transtornos psíquicos, mais especificamente com quadros de depressão e ansiedade, entre outros transtornos do Eixo I e, até de certa forma, transtornos de personalidade que são mais complexos.
O fato é que, já praticamente com o texto pronto “em minha cabeça” e em algumas anotações que fiz ao longo do dia, estando eu a caminho de casa no retorno do trabalho (e de um dia bem desgastante), me deparei com uma das cenas mais tristes e de certa forma mais assustadoras em que já vivi e, que tive que participar ativamente, por questão de instinto e compaixão. Devo dizer que até o presente momento, já tarde da noite, ainda me sinto estranho com tudo que aconteceu e assustado, porém grato pela oportunidade de ajudar alguém em um momento de grande desespero. Alguém que talvez eu nuca mais veja, mas que, com certeza, marcou minha vida.
Retornando para casa de carro, passei por um viaduto no centro da cidade onde moro e já de longe percebi algo meio estranho. Quando me aproximei, percebi que havia uma jovem do lado de fora da grade do viaduto pendurada e apenas um senhor à segurando pelo braço do lado de dentro. O susto foi muito grande diante daquela cena. Parecia um filme. Nada mais, nada menos, acredito que o viaduto deva ter de 8 a 10 metros de altura e o transito abaixo dele era intenso.
Como disse, numa atitude totalmente instintiva, parei o carro no meio do viaduto, desci e corri em direção a jovem que chorava muito e dizia não querer continuar vivendo, ao passo que o senhor gritava para que eu o ajudasse. Ainda sem conseguir raciocinar, tamanha emoção, susto, medo e sei o que, logo a agarrei (eu do lado de dentro da grade, ela do lado de fora, fazendo força para se largar e cair). Naquela situação outras pessoas que passavam sobre o viaduto começaram a se aproximar e me ajudaram segurar a jovem, que em seguida descobrir ter 17 anos e que, além de tudo, também estava com os pulsos cortados, ou seja, havia se mutilado. Após todos nós, juntos, termos conseguido retirá-la da parte de fora do viaduto (pendurada na grade), ao conversar com ela, descobri que também havia ingerido uma grande quantidade de clonazepan, minutos antes do ocorrido. O que me apavorou ainda mais e me deixou ainda mais preocupado com a condição de saúde dela. Pois bem, logo chegaram os policiais ao qual informei sobre a questão da auto medicação e, em seguida chegou o socorro médico. Não consegui conversar mais com a jovem pois eram muitas pessoas ao redor tentando falar com ela, fazer orações, dar conselhos, etc. Só me lembro de ter dito de forma rápida que para qualquer situação difícil em que ela estivesse vivendo, por pior que fosse (ela falou alguma coisa sobre briga com a mãe), com certeza haveriam possibilidades de superar, de alguma forma, essas dificuldades e citei rapidamente minhas “lutas” com depressão e ansiedade. Foi tudo muito rápido e muito breve, mas muito intenso e assustador, como disse anteriormente. Peguei o carro, respirei fundo e segui para casa.
OK! ainda tenso… mas vamos ao texto que preparei nesse dia. E que, com certeza, está intimamente ligado a situação vivida por essa jovem e também por mim em algum momento não muito distante.
Pessoas ditas “normais”, “saudáveis”, “vitoriosas”, etc, não tem ideia e nem dimensão da capacidade que pessoas com transtornos psíquicos (depressão e ansiedade patológica), possuem de permanecerem continuamente atentos à tudo a sua volta e principalmente ao seu interior, o que podemos chamar de estímulos. E esse excesso de atenção, auto análise e constante estado de “alerta” faz com que essas pessoa, nessas condições, se desgastem ainda mais, tanto física como psicologicamente.
Além de todo este estado de “alerta” e constante atenção aos estímulos, ainda ocorre um agravante. Pessoas com transtornos psíquicos tendem a superestimar, supervalorizar, e “enxergar” de maneira muito negativa esses estímulos, essas sensações, seus pensamentos “obsessivos”, angustias e até mesmo fantasiam ou interpretam de maneira totalmente errônea e irreal aquilo que ouvem, aquilo que ele vêem, sendo que até mesmo a expressão facial de pessoas próximas podem despertar pensamentos ou sentimentos ruins. Tudo isso faz com que o quadro psíquico e mental se auto alimente, se auto reforce e a tendência é que a pessoa se sinta cada vez mais angustiada, aflita, solitária, sem esperanças, mesmo estando rodeada de pessoas que a querem bem. Tudo isso, volto a dizer, devido a intensidade desproporcional e negativa que ela assume, dentro da sua realidade e condição como verdade.
Essas pessoas, tendem a viver constantemente uma situação de comparação com o período passado em que ainda se sentiam saudáveis, fortes, inteligentes, positivas, etc. Vivem também em um continuo estado de comparação entre o hoje “doente” com o que gostariam de ser, ou com o que gostariam que acontecesse no futuro, seja na dimensão dos relacionamentos, na vida profissional, consigo mesmas, etc. E, vivem em um continuo e desgastante estado de comparação com os outros, que elas, a princípio acreditam serem pessoas saudáveis, bonitas, vitoriosas, realizadas, que estão conquistando coisas e bens, ao passo que sua condição é de “paralisia”. É um constante e aflitivo processo de comparação, imaginando que a vida dos outros é bem melhor do que a delas, e permanecem incapazes de processar pensamentos contrários a isso, o que seria a realidade, pois todos tem problemas, angustias, medos, decepções, etc. É a dimensão da potencialização negativa da cognição, ou seja, incapacidade de formular pensamentos adequados, reais, de respostas positivas, que faz com que essas pessoas tendem a se manterem nesse quadro de sofrimento. E por questões de defesa vivem em uma constante situação de fuga, de esquiva, de afastamento, para que os outros não percebam suas fraquezas e para que não tenham que passar por situações que “alimentem” esse sofrimento e essa visão negativa de si.
(Continua na próxima postagem)