De grandes “mentiras” fiz minhas verdades

Hoje quero falar um pouco sobre aquilo que a Terapia Cognitiva Comportamental ou simplesmente TCC (TCC = uma linha, uma abordagem, um segmento, uma modalidade, uma vertente de psicoterapia – no qual podemos nos aprofundar em outros posts futuros) apresenta como crenças nucleares.

Vale a pena aqui, apenas uma rápida explicação sobre a Terapia Cognitiva Comportamental neste início de texto, para nos orientarmos sobre o tema proposto. A TCC trabalha com a dimensão e abordagem de uma espécie de tríplice vertente: pensamentos, sentimos/afetos e comportamento. Esta abordagem aponta essas três situações como tendo uma inter-relação entre elas, ou seja, pensamentos nos geram sentimentos ou manifestação de afetos (seja no âmbito emocional ou físico), que por sua vez nos levam a determinados comportamentos e, dependendo de nossa condição psíquica e do ambiente em que vivemos ou estamos, desperta em nós o processo de luta ou fuga como já mencionado em posts anteriores.

Pois bem, ainda antes de entrarmos no conceito das crenças nucleares, que são aqueles conceitos ou ideias centrais que temos sobre nós mesmos, seja de forma muito positiva, irrelevante ou principalmente negativa (e quero aqui tratar realmente da dimensão negativa, pois se tudo estivesse bem, eu não estaria aqui escrevendo e nem você estaria lendo o que escrevi – risos), quero pincelar um pouco sobre os pensamentos automáticos e as crenças intermediárias que dentro da TCC englobam a dimensão cognitiva (pensar).

Resumindo de forma bem rápida, em se tratando dos pensamentos automáticos, podemos entender aquele turbilhão de pensamentos e imagens que “passam” por nossa cabeça à todo instante, sem que tenhamos o mínimo de controle sobre eles, pensamentos e imagens que muitas vezes nos angustiam, nos atormentam, nos assustam e nos desgastam tanto físico como psicologicamente (o desgaste já entra num conceito de confronto com os próprios pensamento e que devemos analisar com certa atenção, pois este “confronto” já não se apresenta como algo muito sadio para nós, gerando assim o desgaste). Pensamentos e/ou imagens que muitas vezes se manifestam como preocupações, pensamentos de morte, de acidente, de violência, pensamentos de conflito pessoal, pensamentos de incapacidade, limitação, pensamentos fixos (aqui se diferencia um pouco da dimensões de obsessão que já pode ser entendida, a partir de um diagnóstico clínico com um médico especialista, como um transtorno específico de obsessão), enfim, pensamentos que podemos dizer: não gostaria de tê-los! Um exemplo clássico é o pensamento constante de que irá ser demitido do emprego (mesmo sem uma razão específica) ou de que irá acontecer um grave acidente com o próprio filho ou com os pais, e ainda com imagens pornográficas referente a determinadas pessoas em ambientes e situações em que você acredita não serem adequados, convenientes e/ou corretos.

Já as crenças intermediárias que ainda fazem parte da dimensão cognitiva (pensamentos) já dizem respeito a determinadas regras e pressupostos que criamos a partir das crenças nucleares, em conjunto com os pensamentos automáticos.

Por exemplo, a pessoa que tem uma crença nuclear (central) de que é incompetente ou “burro (a)”, na maioria das vezes vai ter crenças intermediárias do tipo: “Eu não vou conseguir” ou “Se eu fizer determinada coisa, vai dar errado!” e, em um contexto de fuga a pessoa também pode pensar “Melhor eu nem tentar, assim eu fico bem e evito o constrangimento!”.

Pois bem, explicado a dimensão dos pensamentos automáticos e crenças intermediárias, vamos ao que eu realmente quero apresentar nesta postagem, as crenças nucleares e daí escolhi o título do post como: “De ‘grandes’ mentiras fiz minhas verdades”.

Como disse antes, as crenças nucleares são aqueles pensamentos, conceitos, ideias que temos sobre nós mesmos na dimensão mais profunda da cognição (pensamentos), uma coisa bem de “auto imagem” se assim podemos dizer. Normalmente, quando negativas, são enquadradas em três categorias, sendo crenças de desamor, de desamparo e de desvalor. Lembrando que em boa parte da vida, as crenças nucleares tendem a ser positivas, mas na hora que o “bicho pega de verdade” automaticamente surgem as negativas que estão “enraizadas” em nós devidos a algumas situações.

Todos temos momentos bons e ruins em nossas vidas, isso é a vida! Mas nos momentos mais difíceis e de grande stress, tendem a desencadear em nós (por diversos motivos) processos de cansaço físico e principalmente mental, o que na maioria das vezes nos tende a entristecer, desanimar, desmotivar, etc. Isto é absolutamente normal e até de certa forma saudável, pois nos encaminham a superação. Porém, muitas das vezes, pensamentos automáticos, crenças intermediárias e principalmente as crenças nucleares que parecem “adormecidas” tendem a ganhar certa força nesses momentos “difíceis”. Ok, até aí tudo normal! Continuamos vivendo, trabalhando, cuidando de nossas famílias, curtindo a vida, etc…

Agora aqui, vamos começar a entender quando tudo isso começa de fato a nos atrapalhar. Alguns de nós trazem consigo predisposição genética, biológica e/ou fisiológica para alguns quadros de doenças, em especial de transtornos psíquicos, seja para depressão, ansiedade, etc, (isso de forma hereditária). Também, desde criança, somos constantemente confrontados com situações de decepção, frustração, traumas, perda de referência, angústias, aflições, medos, entre outras situações. Também tratamos dia a dia com o contexto de nossa personalidade que pode vir a apresentar traços de timidez, introversão, inquietude, sensibilidade, etc, etc, etc… OK, só citei exemplos ruins, né? (risos)

Pois bem, esses exemplos formam o conjunto de situação que tendem a apresentar grande probabilidade de manifestação de certos transtornos psíquicos, sejam em menor ou maior grau ao longo da vida, mas, e não diferente, pessoas que, como costumamos dizer, sempre tiveram tudo do bom e do melhor, que são extremamente extrovertidas, tiveram uma excelente infância, etc, também podem vir a sofrer angustias, aflições e quadros de transtorno psíquico e mental, como qualquer outra pessoa em algum momento da vida. (já tratamos disso em um post anterior)

Voltando então ao tema crenças nucleares, estas tendem a se manifestar de forma muito superestimada, com muita intensidade e com grande distorção da auto imagem, de forma um tanto prejudicial ao ponto de nos “paralisar”, em momentos de grande sofrimento psicológico, principalmente quando sofremos com a condição dos transtornos de depressão e ansiedade patológica.

Crenças do tipo: “Eu sou burro(a)”, “Eu sou incompetente”, “Eu sou sou ruim”, “Eu sou doente”, “Eu sou feio(a)”, etc, etc, etc…

Fazendo uma ligação aos afetos e comportamentos, como citei na abordagem inicial sobre a Terapia Cognitiva Comportamental, essas crenças, a partir da predisposição genética, dos traumas infantis, dos momentos de auto cobrança, stress, perdas, dificuldades do dia a dia, entre outros fatores que “engatilham” e geram os transtornos psíquicos, tendem a nos levar a vivencia de afetos e/ou sentimos muito negativos e até mesmo fisicamente sensíveis, como tristeza, angústia, aflição, medo, insegurança, dor de cabeça, palpitação, falta de ar, falta ou excesso de apetite, suor excessivo, tontura, nauseas, pânico, etc e, que por sua vez, geram comportamentos de evitação, como evitar de falar em público, evitar de frequentar ambientes (por medo ou insegurança), evitar se relacionar, ficar na cama, ficar em casa, não ir trabalhar, etc.

Relembrando a sequência e o ciclo: pensamentos, sentimentos/afetos e comportamentos. E, determinados comportamentos, tendem a reforçar os pensamentos que por sua vez reforçam os sentimentos e assim por diante.

Como citei acima, as categorias das crenças nucleares apresentam a dimensão do desamor, mais relacionado ao outro (não conseguir ser amado), a dimensão do desvalor (visão irreal ou desproporcional do próprio caráter) e a dimensão do desamparo (em relação a algo ou alguma situação). Exemplos:

Desamor: “Eu sou incapaz de ser amado (a)”, “Eu não sou desejável”, “Eu não sou querido”.

Desvalor: “Eu sou ruim”, “Eu sou perigoso”, Eu sou inútil”, “Eu não mereço algo de bom”.

Desamparo: “Eu sou ineficiente”, “Eu sou fraco”, “Eu sou burro”, “Eu estou sem saída”, “Eu sou um fracasso”.

Como disse, esses pensamentos, ideias, conceitos ou simplesmente crenças nucleares tendem a ganhar ainda mais força, intensidade, irrealidade, desproporção, e se auto reforçarem de forma contínua em momentos de quadros depressivos e de ansiedade patológica (transtornos).

Mais uma vez quero aqui dizer que em nenhum momento a ideia é diagnosticar alguém ou levianamente fazer com que os próprios leitores levantem suspeitas negativas sobre a própria situação de saúde psíquica e mental, mas apenas auxiliar e num contexto de psicoeducação apresentar possibilidades de ajuda a partir da minha experiência de tratamento psicoterapêutico, experiência de vida e paixão por esta área humana. Minha dica sempre será: busque um profissional de saúde, em especial um médico ou psicoterapeuta, para um diagnóstico clínico e tratamento correto, sempre que acreditar ser necessário, sem culpa e sem preconceito.

Por fim, quero apenas ressaltar que crenças nucleares, assim como crenças intermediárias podem e devem ser mudadas. Muitas são as técnicas, abordagens, exercícios, etc, psicoterapêuticos existentes, para nos levar a uma saúde mental mais desejada, adequada, ajustada a nossa realidade e condição e, principalmente, para nos levar a uma melhor condição de vida. É preciso buscar ajuda e auxílio correto, deixar de “ouvir algumas vozes” (negativas) e começar a “ouvir outras” (positivas) e principalmente se amar, ser grato, se respeitar, entender a própria humanidade com carinho e compaixão. Melhorando sua qualidade de vida e sua visão de si mesmo, é possível enxergar aos outros e ao mundo de forma melhor e mais interessante!

Um forte abraço… estamos juntos, desmascarando essas “mentiras” sobre nós mesmos, para que só fique a nossa verdade! E tenho certeza que ela é extremamente agradável, boa, amável, cheia de sabedoria e coragem.

OBS: Indico a leitura do livro: Terapia Cognitiva Comportamental – Teoria e Prática de Judith S. Beck – 2 Edição (2011) da Editora Artmed. Este livro me ajudou e me ajuda muito e também foi utilizado como fonte e referência para o texto desta postagem.

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