Nesta postagem, quero explicar o motivo do descritivo sobre a passagem bíblica que escolhi para colocar abaixo do título do blog referente a figura de Jó, um personagem bíblico.
Embora eu seja cristão católico, não é minha intenção principal utilizar este espaço para qualquer tipo de manifestação religiosa, fica a critério do leitor acolher e interpretar o texto desta forma. Porém, tendo em vista que, muitos que aqui lêem este ou os demais textos, pertencem a outras religiões ou até mesmo não possuem uma religião específica para chamar de sua (risos), sendo isso algo totalmente pessoal (e aqui manifesto meu respeito à qualquer escolha e/ou opção, seja religiosa, de crença, cultural, comportamental, sexual ou de gênero), quero apenas explicar e deixar claro o motivo da minha escolha referente a esta descrição e, logo verão que nada tem a ver com o conceito de religião.
Certa vez ouvi alguém dizer que “saúde é ter dinheiro, ter uma boa casa, um bom carro, um bom trabalho, uma boa família, entre outras coisas… (desde que sejam boas)”. Ok, entendo perfeitamente que deva ser muito bom ter todas essas coisas e também ter saúde. Perfeito, nada mal nisso! Deve ser muito bom esta “plena” realização baseando a saúde em possuir coisas e pessoas.
Porém também é certo que conheço muita gente que tem tudo isso (e do bom), porém lhe falta a saúde e, faltando a saúde, tudo o que ele (a) tem, perde o seu valor rapidinho, rapidinho!
Ué, mas uma coisa não está ligada a outra? Ou melhor, uma coisa não proporciona a outra?
A resposta é: Não! Algumas coisas, como dinheiro, carro, família, etc, podem te ajudar e muito em eventuais casos de necessidades quanto a sua saúde física e mental ou mesmo de pessoas que você ama e quer bem, mas jamais poderão te conceder a saúde por si só como num passe de mágica. Ou seja, comprei um carro novo, tenho saúde, comprei uma casa nova, tenho saúde, ganhei na loteria, tenho saúde. Não! Isso tudo está muito mais ligado a processos motivacionais e de recompensa do que saúde propriamente dita. E em uma análise bem básica e rápida, muitas vezes pensar desta forma de maneira exacerbada, ambiciosa e desrealista já é um princípio de algo que precisa ser diagnosticado por um profissional da própria saúde.
Pra gente começar a conversa, uma simples gota de sangue a mais que resolveu dar um passeio no cérebro de um indivíduo pode levá-lo “dessa para a melhor” em milésimos de segundos (a definição de “melhor” fica por sua conta), mesmo tendo ele carro, casa, família, trabalho, etc.
Pois bem, estão vemos aqui que saúde é algo que vai além de bens materiais, pessoas e relacionamentos. Tudo isso pode colaborar para uma vida mais saudável, SIM, concordo, mas ter saúde é algo que vai além de tudo isso e, no nosso caso aqui, saúde psíquica e mental.
Nesse sentido já podemos eliminar dois conceitos ou ideias que possam ter se tornado crenças centrais enraizadas em nossa mente.
A primeira é o sentimento de culpa que domina quem padece de algum transtorno psíquico como depressão ou ansiedade generalizada, ou ainda transtorno de pânico e fobias específicas. Sentimento este que surge justamente devido a pessoa achar que mesmo tendo “tudo” não tem saúde ou ainda que é preciso se “anular”, se “renegar”, se “desprezar” e desprezar a própria dor para conquistar algo. Como se fosse uma obrigação dela restituir a própria saúde por forças próprias, ou tivesse que ter saúde “na marra” para se mostrar agradecida por tudo que tem. Não quero aqui dizer que não é de responsabilidade nossa cuidar da própria saúde, muito pelo contrário, mas quero aqui dar um basta em qualquer sentimento de culpa devido a falta de saúde, já que em algum momento e por algum motivo, ela se manifestou na minha ou na sua vida.
A outra ideia, conceito, cultura ou seja lá o que for, é o tal preconceito. Preconceito este que vem de si próprio e, novamente volto ao sentimento de culpa, ou preconceito por parte dos outros em relação a sua doença ou transtorno psíquico. Vamos usar a partir daqui o termo transtorno para os quadros mentais. Normalmente frescura, fraqueza, preguiça, loucura, são os termos mais utilizados por quem não entende nada sobre o assunto ou que não tem o mínimo de respeito pelos outros. Ah, o preconceito também sempre surge em forma de comparações, por exemplo, fulano é um cara tão inteligente, estudioso, enfrenta várias dificuldades para vencer e você fica aí na cama cheio de medo, inseguro e carente. Ok, bacana, mas esta pessoa não sabe que só o ficar na cama, para quem muitas vezes nem tem mais forças ou vontade de viver já é o começo de uma vitória!
Então, primeiramente já vamos dizer: dane-se o sentimento de culpa e dane-se o preconceito! Precisamos é de ajuda e não de julgamentos, questionamentos, censuras, etc, seja de quem for!
Pois bem, mas em tudo isso, o que tem a ver o pobre do Jó?
Pra quem conhece a história do famoso Jó, sabe que ele era muito rico, tinha tudo, tinha uma grande família, e era extremamente realizado, porém em algum momento de sua vida perdeu tudo e principalmente perdeu a saúde. E é aqui que eu faço um paralelo com a vida de quem sofre de algum transtorno psíquico, principalmente transtornos depressivos e de ansiedade que dizem mais respeito aos afetos, emoções, humor e que geram uma grande quantidade de sintomas somáticos (ainda teremos outros textos falando da questão genética, hereditária, experiências de vida, traumas, hormônios, fisiologia, etc). O fato é que para quem sofre com isso, sempre vai existir um antes e um depois da manifestação do transtorno. Como que se a vida estivesse dividida em duas partes.
Momentos que antes eram felizes, leves, tranquilos, embora mesmo com os desafios e dificuldades do dia a dia, tornaram-se, a partir de um determinado momento, totalmente sombrios, cheios de desânimo, dores, tristeza, com sintomas angustiantes, de forma que a falta de vontade e sentido de viver fizeram “desaparecer” todo aquele brilho que a vida proporcionava.
Mas é aqui que surge um terceiro momento e, que o texto de Jó descrito no inicio do blog quer apresentar:
“O Senhor abençoou os últimos tempos de Jó mais do que os primeiros…”(Jó 42, 12;)
Se antes existiam bons momentos onde tudo parecia ter sentido, onde a coragem, a movitação, a alegria, os relacionamentos, o trabalho e a família, tinham grande e fundamental importância para nós e, por alguma razão, em um segundo momento surgiram as angústias, os medos, os sintomas, a depressão, a ansiedade, o pânico… quero então agora utilizar este pequeno texto de Jó para simbolizar um TERCEIRO MOMENTO, o momento da restituição, da cura, da re-significação, da recuperação da alto estima, da re-socialização, da retomada de sentido, da reedição exclusiva e personalizada da própria vida, dentro daquilo que ela quer nos proporcionar com o aprendizado que obtivemos nos momentos difíceis e, sendo a vida dinâmica e cheia de surpresas, tenho certeza que este terceiro momento será um conjunto de “terceiros momentos”, em que a cada dia, a cada hora, a cada nova experiência, esta mesma vida deverá ser escrita de uma forma diferente, com uma visão diferente, totalmente fundamentada na esperança e na força de vontade, mesmo que essa demonstração de força de vontade comece com um simples levantar da cama, um simples sair na porta de casa, um simples dar uma volta em uma praça e assim por diante. E digo simples, na visão de quem não conhece a fundo o assunto, pois esses exemplos (simples) já foram vivenciados de forma um tanto quanto desafiante e aflitiva por parte deste que escreve este texto.
É isso, CORAGEM! Você não está sozinho (a)! É hora do terceiro momento!